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Archive for fevereiro \13\UTC 2011

Se a filmografia de Darren Aronofsky fosse um mapa-múndi poderia-se dizer que o americano saiu do Pólo norte para o Pólo Sul. Isso se levarmos em conta que sua película anterior, estrelada por Mickey Rourke, discutia a decadência de um velho praticante de luta livre, e sua nova produção narra o árduo caminho de uma jovem bailarina rumo ao estrelato. No entanto, as diferenças entre as duas produções não se limitam apenas a fases vividas por seus protagonistas, mas, também, no que diz respeito a forma como o cineasta constrói esses dois universos.

Em “O Lutador” (2008), a vida de Randy ‘The Ram’ é narrada da forma mais realista possível, por conta disso a crueldade da fita está exatamente em como o velho brutamontes encara o fim da fantasia de ser um astro do esporte. Já em Cisne Negro (Black Swan,2009) o processo e inverso. O grande drama na vida de Nina (Natalie Portman) se passa dentro de sua própria mente, pois seu grande desafio é ultrapassar as barreiras impostas pela sua própria imaginação.

Randy é um decadente lutador com a mente de jovem iniciante, preso em um corpo deformado pelas marcas do tempo. Já Nina está no auge de sua forma física, sua única barreira está em seu campo psíquico extremamente conturbado, justificado pela superproteção de sua mãe (Bárbara Hershey), aliada a relação de amor e ódio com seu coreógrafo (vivido pelo francês Vincent Cassel) e com sua amiga Lily (Mila Kunis).

O resultado é uma viagem a intensa guerra travada dentro da mente da personagem, algo que se aproxima bastante da recente obra prima de Lars Von Trier (“Anticristo”), porém com maior arrojo visual. É impossível ficar indiferente aos criativos recursos fotográficos usados na representação do mundo de Nina. Não é exagero dizer que a melhor bailarina do filme é a câmera de Aronofsky, que dança com extrema sintonia com a movimentação dos atores, e por vezes assume a identidade da personagem nos transportando para dentro dos olhos de Nina em meio a movimentos característicos da dança.

O processo de amadurecimento do autor foi gradativo. Seu primeiro longa, Pi (1998), já sinalizava características peculiares do diretor – como na forma como utiliza o som com o intuito de traduzir sensações impossível de serem representadas através de imagens. Mais de dez anos se passaram desde o lançamento da produção e não houve desvios em sua trajetória. Seus longas seguintes mantiveram o mesmo tom autoral, mesmo com o fracasso comercial do subestimado “Fonte da Vida” (2006).

Independente do resultado do Oscar, Cisne Negro é o melhor filme do ano – nada mal se levar em conta que foi lançado no mesmo ano de “A Rede Social”, o Easy Rider da geração Y. Provavelmente não se trata de um filme que a academia se simpatize, talvez por andar na contramão da breguices que o Oscar costuma valorizar, contudo a atuação de Natalie Portman e a fotografia de Matthew Libatique são os grandes favoritos em suas categorias.

Cisne Negro é uma espécie de Persona contemporâneo, que navega pelo campo da psiquiatria sem fazer cara de bula de remédio, e que presenteia diferentes perfis de público com um cinema visualmente deslumbrante e reflexivo. Uma verdadeira aula de cinema.

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Por Bruno Marques

02/02/2011

Dirigido por Vicenzo Natali, realizador do instigante “Cubo” (1997), Splice – A Nova Espécie (Splice, 2009) não é um filme facilmente digerido por todos os tipos de plateia como o pôster pode sugerir, já que esta ficção cientifica necessita que o espectador esteja disposto a se envolver intelectualmente com a história, para, assim, alcançar todas as mensagens que o diretor se propôs a realizar. Isso, contudo, não quer dizer que a película não contenha bons momentos de entretenimento, muito pelo contrário. Seu humor negro e clima de suspense garantem boas doses de satisfação para quem também comprou ingressos à procura de divertimento, desde que esteja aberto a se envolver com a trama, deixando seus preconceitos de lado.

À primeira vista, o roteiro remete ao fraco “A Experiência” (1995). Tudo começa quando os cientistas genéticos Clive (Adrien Brody) e Elsa (Sarah Polley) ganham notoriedade ao juntar o DNA de diferentes animais e criam uma nova espécie híbrida. Seguindo seus experimentos, o casal tentará combinar o DNA humano com o da nova espécie, com o intuito de encontrar a cura para doenças graves como o câncer, contrariando a ética do mundo científico. O resultado é uma criatura que mais parece um feto, batizada de “Dren”. Logo o humanóide começa a evoluir se transformando em uma atraente adolescente interpretada de forma impecável pela canadense Delphine Chanéac .

Neste ponto, inicia-se uma gratificante viagem ao fundo de nossas mentes, remetendo à grande fase do gênero (anos 80), em que diretores como John Carpenter e David Cronenberg traduziam nossos sonhos mais bizarros em fotogramas. Em Splice – A Nova Espécie existe uma relação muito forte com o universo dos dois, principalmente com o diretor de “A Mosca” (1986) e “eXisteZ” (1999). Vale para quem não conhece sua filmografia assistir a eles  previamente ante de ir ao cinema.

Interpretado por um elenco afinado, Splice – A Nova Espécie é muito mais que um filme sobre seres gosmentos e sustos. Não cabe aqui tentar explicar as reais intenções de Natali com a película e suas diversas camadas de análise, até porque o embrião do roteiro é desafiar nossos cérebros. Quem estiver aberto a essa proposta não se arrependerá. Já que esse será o fator que moverá a curiosidade da plateia até os créditos finais.

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