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Archive for outubro \31\UTC 2010

Provavelmente  o público feminista ficará horrorizado com o comportamento machista de Lou Ford, personagem de Casey Affleck em  “O Assassino Dentro de Mim” (The Killer Inside Me), dirigido pelo britânico Michael Winterbottom. Já as fetichistas compactuarão da mesma admiração que as personagens de Kate Hudson e Jessica Alba (namorada e amante, respectivamente) nutrem  pelo personagem dessa história Baseada no livro homônimo  de 1952, escrito por Jim Thompson, sobre um xerife psicopata que abusa da violência, principalmente, contra mulheres.

Tudo começa quando ele se envolve com a prostituta Joyce Lakeland (Alba), amante de um poderoso empresário da pequena cidade onde vive.  O casal possui em comum o gosto pelos prazeres do sexo violento. Paralelamente, o policial descobre o envolvimento do amante de Joyce na morte do  seu irmão adotivo. Com o intuito de se vingar, Lou usa a moça como isca e executa o filho do empresário . Após o crime, o xerife passa a cometer outras mortes como forma de  esconder o primeiro homicídio, porém, gradativamente, descobre que suas motivações em matar  estão muito além do receio de ir para a prisão.

Quem teve a oportunidade de assistir ao clássico “ A Sangue Frio”, adaptação do Best seller de Trumam Capote, irá encontrar muitas semelhanças entre as duas películas. Principalmente pelo fato de contarem com protagonistas repulsivos, contudo, apresentados como sofredores de uma doença incurável, que os motiva a matar sem sentir remorso.

A opção de justificar os crimes cometidos por Lou para uma discussão patológica tenta extrair sentimentos de piedade do público para com o protagonista – isso fica claro quando é apresentado a relação entre Lou e sua mãe -, o que acaba confrontando o espectador com seus próprios conceitos morais, assim como Michel Haneke realizou em “O Vídeo de Benny” e “Violência Gratuita”.

O poder da narrativa escolhida pelo diretor investe em causar aproximação entre o assassino e o público. Tanto que a história é contata a partir do ponto de vista do personagem, deixando-nos posição privilegiada da rede de relacionamentos de Lou. Dando a quem assiste o “privilégio” de conhecer a fundo o assassino que mora dentro do policial.

Essa opção de colocar o espectador em posição contrária as leis dos bons costumes não é nenhuma novidade. Basta lembra que Stanley Kubrick fez o mesmo em “A Laranja Mecânica” e hoje é cultuado pelos quatro cantos do mundo. A resposta para tamanha admiração talvez esteja presente no assassino que existe dentro de todos nós e que encontra no cinema uma forma de se revelar.

Goste ou não, o certo é que fica absolutamente impossível ficar indiferente ao humor sádico de “O Assassino Dentro de Mim”. Sem dúvida o tempo irá amenizar a repulsa que grande parte do público sentiu quando a produção foi apresentada em festivais em todo o mundo. Quando esse dia chegar, os mesmos que hoje acusam o longa de fazer apologia à violência estarão rindo com todos os dentes ao assistir os crimes bárbaros de Lou Ford, se deleitando enquanto o sangue jorra para fora da tela, assim como aconteceu quando o clássico de Kubrick foi lançado.

 

Crítica publicada durante o festival de cinema de São Paulo


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Os tempos mudaram, muitas vezes o que era trash hoje é Cult. “Machete” (2010), dirigido pela dupla Ethan Maniquis e Robert Rodriguez, é um exemplo desse tipo de transformação. A saga do policial mexicano, protagonizada por Danny Trejo, privilegia os clichês dos clássicos filmes B nos anos 70 e 80 que o diretor de “Planeta Terror” sempre fez questão de fazer referências em suas produções.

Muito antes dos high techsPequenos Espiões” e “As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl “, Rodriguez já fazia homenagens ao estilo nos excelentes “El Mariachi” e “A Balada do Pistoleiro”. Contudo, foi com oprojeto Grindhouse (fruto da parceria com Quentin Tarantino) que o diretor passou a ter uma preocupação de traduzir a experiência de assistir uma sessão de cinema do gênero, usando os defeitos técnicos como parte da narrativa.

O roteiro não poderia ser mais básico. Machete (Trejo) recebe a tentadora proposta de assassinar o senador racista John McLaughlin (Robert De Niro), em um evento durante sua campanha de reeleição. No meio da ação, Machete é gravemente ferido. Após sua rápida recuperação parte em busca de vingança, para isso contará com a ajuda da policial Sartana Rivera (Jessica Alba), da revolucionária Luz (Michelle Rodriguez) e do padre Cortez (Cheech Marin).

Frequentador assíduo dessas produções comumente apresentadas em canais e horários pouco atraentes , Danny Trejo, sempre teve sua imagem ligada ao time dos vilões. Ao assumir o papel do mocinho revelou-se um ator tão competente quanto os astros Arnold Schwarzenegger ou o próprioSeagal que, dessa vez, interpreta um sanguinário traficante de drogas. Não é à toa que bordões como Machete don’t text (Machete não envia SMS) e Machete improvises (Machete improvisa) já circulam com destaque na internet.

É provável que a atuação de Trejo tenha surpreendido até mesmo os diretores do longa, que exageraram na quantidade de tramas paralelas, provavelmente pensando que o veterano ator não conseguiria segurar a atenção do público nos 100 minutos de projeção. Além disso, em alguns momentos, há uma preocupação excessiva de fazer críticas à política de imigração americana. Se por um lado estar em sintonia com questões sociais pode ser visto como fator positivo, por outro lado faz com que ocorra uma quebra se comparado ao início extremamente movimentado, confundindo o espectador que, na maioria dos casos, pagou para se divertir sem fazer muitas exigências ao cérebro.

Agora a esperança dos fãs é que nas sequências: “Machete Kills” e “Machete Kills Again” (ao pé da letra ‘Machete Mata’ e ‘Machete Mata de Novo’), a dupla de diretores deixe que o agente federal mexicano mostre todo seu talento sem se preocupar com os problemas reais da sociedade americana.

Crítica realizada durante o 34ª Mostra Internacional de cinema de São Paulo.


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Tropa de Elite 2

 

Em pouco mais de uma semana em cartaz, ‘Tropa de Elite 2’ continua fazendo história, não somente pela discussão em torno do problema da segurança pública no estado do Rio de Janeiro, mas também pela forma como o se preparou para vencer a grande força da pirataria em reação ao vazamento do primeiro longa, assistido por cerca de  11 milhões de pessoas antes mesmo do seu lançamento nos cinemas.

 

Dessa vez cada cópia foi identificada com um número de série onde é possível identificar o cinema no qual foi feita a gravação clandestina. Essa atitude fez com que a responsabilidade pela segurança das cópias passasse a ser das salas exibidoras, que, por sua vez, passaram a  inibir ostensivamente o uso de câmeras e celulares durante a exibição.

 

Até mesmo a imprensa não foi poupada das ações antipirataria. Durante exibição para a imprensa em um cinema na cidade de Paulínia no interior de São Paulo. Jornalistas e convidados passaram por detectores de metal e tiveram suas bolsas revistadas.

 

Mesmo com o combate ostensivo já é possível ver cópias pirateadas nas mãos de comerciantes clandestinos no tradicional comércio popular da Uruguaiana, no centro da cidade. As cópias continham apenas material de divulgação como trailers e spots de TV, mesmo assim, estima-se que a comercialização do material tenha rendido uma grandes cifras para esses comerciantes.

 

Nos cinemas, ‘Tropa de Elite 2’ já  ultrapassou a incrível marca de 3 milhões de espectadores. Se continuar nesse ritmo irá ultrapassar os 6,4 milhões de ‘Se Eu Fosse Você 2’.

Diretamente do Rio de Janeiro para o site http://www.c7nema.net

 

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Positivas

É admirável quando o cinema toma para si a função de conscientizar toda uma sociedade. Positivas (2010) dirigido por Susanna Lira é um bom exemplo de projeto bem-sucedido, cuja significação rompe as barreiras da grande tela, fazendo com que sua experiência extrapole os 78 minutos de projeção, fazendo-se presente também em discussões do lado de fora da sala escura.

Trata-se de um documentário sobre sete mulheres que contraíram o vírus HIV de seus parceiros fixos. Valendo-nos somente dessa definição, poderíamos imaginar que se trata de um relato frio e distanciado sobre a doença, como uma aula de biologia sobre pessoas infectadas pelo vírus. No entanto, somos apresentados a essas mulheres sem interlocutores, o que faz com que seja conquistada imediatamente a empatia do público, pois todos conseguem imaginar as barreiras que elas tiveram de ultrapassar para se apresentar em público e falar abertamente sobre um assunto tão delicado.

A decisão de dar nome e sobrenome às portadoras do vírus tem como consequência um maior impacto dos relatos, pois estamos frente a frente com as verdadeiras personagens. Um interlocutor ( como um ator ou narrador) poderia demonstrar empatia, entender e até mesmo mostrar compaixão, porém nunca sentiria as dores que essas mulheres sentiram. Isso não está presente somente nas palavras, mas em todos os gestos, expressões e até mesmo na respiração de quem convive diariamente com o preconceito, que, com certeza, é o que ocasiona as dores mais fortes. Mesmo assim, os depoimentos passam longe de um clima depressivo. Como a ambiguidade do título já anuncia, todas demonstram um olhar otimista sobre o mundo.

O estilo puramente baseado em entrevistas sobre o tema parece não querer desviar a atenção do público sobre o problema, mostrando que é possível levar uma vida feliz após contrair a doença, porém sem nunca deixar de alertar sobre os cuidados da prevenção. Por se tratar de uma obra fechada, não há possibilidade de interpretações equivocadas sobre o mal que atinge um grande número de mulheres casadas, as quais correspondem a 64 % das  infectadas por HIV no Brasil.

Positivas é uma boa oportunidade de assistir a relatos sobre um assunto que até há pouco tempo era tabu em nossa sociedade, suscitando a discussão de forma responsável sem nunca deixar de ser descontraído.

 

Empretec encontro

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Gosto de Cereja

Dia de folga, nada para fazer. O feriado pede uma boa história pipoca, certo? Errado. Nada como assistir à uma obra-prima do cinema iraniano. O filme escolhido foi  “Gosto de Cereja”, dirigido pelo grande expoente do cinema  daquele país,  Abbas Kiarostam.

 

Badii é um homem depressivo que pretende cometer suicídio, mas para isso necessita de ajuda de alguém (todo suicida precisa de uma força). Por isso anda pelas ruas de Teerã à procura de um cúmplice para enterrá-lo. Em um primeiro momento, todos se recusam, principalmente pela atitude ser condenada pelo alcorão. Até que encontra um turco que tentou fazer o mesmo no passado. Esse homem tentará mostrar a Badii uma visão mais positiva sobre o nosso mundo.

 

O que mais impressiona é que nada parece ter sido captado de forma gratuita pelas lentes das câmeras Kiarostam. Como se todos os elementos de cena  falassem pelos personagens. Um exemplo bem claro é a partir da metade do filme quando o discurso de torna mais otimista, e toda a paisagem passa do monocromatismo do deserto, para o colorido das praças arborizadas. A chave para conseguir esse efeito está na fotografia monumental da fita, que de forma muito delicada  usa elementos (que poderiam ser apenas decorativos) como arvores, janelas de carros e paisagens como guias do olhar do espectador, recortando o universo em total sintonia com a variação do estado de espírito dos personagens.

 

O desfecho pode ser um pouco desanimador para alguns, porém é inegável que desperta discussões intermináveis a respeito das intenções do diretor.

 

Uma obra de arte fenomenal, perfeita para um feriado de dia das crianças.

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Crítica – Tropa de Elite 2

No Brasil, “Tropa de Elite” incitou discussões calorosas à respeito de sua real proposta. Alguns críticos  chegaram a declarar que se tratava de uma obra fascista, que fazia apologia ao  controle da violência usando de medidas extremas como tortura e execuções sumárias. Outros afirmaram que se tratava de um espelho da realidade, pois queria provar o total despreparo da Polícia Militar carioca, a conivência da classe média com o crime organizado e a crueldade dos traficantes.

Toda essa polêmica poderia ter sido evitada se “Tropa de Elite 2” não fosse uma sequência, mas sim a parte final do primeiro filme, já que o diretor José Padilha retifica o comportamento equivocado do Capitão Nascimento (Wagner Moura), que, por sua vez, acreditava que a única forma de resolver o problema de segurança pública no Rio de Janeiro era matando “favelados”, batendo na classe média e armando ainda mais o BOPE.

Quem conhece o Rio sabe que o tráfico nas favelas é apenas a ponta de um grande iceberg, por conta disso, já no início da projeção, percebemos que  os quinze anos passados, entre uma história e a outra, transformaram o sanguinário policial em um secretário de segurança pública consciente de que o problema é bem maior que o cigarro de maconha que é vendido por um “favelado” aos jovens  da zona Sul da cidade (onde se encontram os bairros mais ricos). Passando a concentrar seus esforços na tentativa de provar que os verdadeiros criminosos estão nos gabinetes dos governantes da cidade.

Esta mudança de postura fez com que a saga ganhasse uma visão mais ampla sobre a violência na Cidade Maravilhosa, passando a inserir personagens invisíveis no primeiro longa, como políticos e policiais milicianos. A diferença entre a postura de total descompromisso ideológico da primeira produção com o papel ativista social da segunda é o que faz de “Tropa de Elite 2” uma poderosa arma contra a impunidade, em favor de uma melhor conscientização política da população carioca.

O compromisso de esclarecer as interpretações dúbias do primeiro tropa fizeram com que o diretor deixasse de lado as barulhentas cenas de ação e investisse no encaixe entre as tramas que gira em torno de diversos núcleos, além de diálogos mais profundos e longos, porém sem nunca fugir do conceito inicial da trama. O roteiro novamente ficou a cargo de  Braulio Montovani (também autor de Cidade de Deus), contando com a colaboração do próprio diretor José Padilha e do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro Rodrigo Pimentel. Novamente realizado sob a ótica do (agora) Comandante Nascimento em um grande flashback.

“Tropa de Elite 2” já chega quebrando recordes, ganhando o posto de quinta maior abertura da história do cinema no Brasil, tendo sido assistido por cerca de 1,25 milhões de espectadores somente no primeiro fim de semana. Contando com 690 cópias em todo o país. Os números são mais significativos se levarmos em conta que não se trata de uma fita que propõe apenas a diversão, mas também uma reflexão sobre a corrupção em uma das principais cidades do Brasil.

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Fim do Festival

assinaturaFoi bom enquanto durou, mas, infelizmente, terminou o festival do Rio. Com certeza se durasse mais um ou dois dias, com certeza morreria de cansaço por conta de tantas noites mal dormidas e correria de um cinema para o outro. Mas, tudo valeu a pena. Espero que este seja o primeiro de muitos festivais.

Faltou um filme que não fiz comentário, “Brother” de Jeferson De. Tudo que posso dizer é que foi tecnicamente muito bem realizadoa, as atuações são boas, contudo peca um pouco pela forma genérica como o roteiro foi desenvolvido, não trazendo muitas novidades aos filmes favelas. Mesmo assim vale conferir.

Sobre Brother:

Um abraço a todos os leitores.

Até o festival de 2011.

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