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Archive for maio \29\UTC 2010

O Profeta

Memórias do Cárcere

Por Bruno Marques

28/05/2010

Falar sobre o caos social que vive a França contemporânea, por conta do grande número de imigrantes que chegam ao país todos os anos, vindos principalmente de ex-colônias, parece ter se transformado na discussão predileta dos diretores daquele país. Sucessos recentes como “Entre os Muros da Escola”- vencedor da palma de ouro do festival de Cannes de 2008 – e o novo filme de Constantin Costa-Gavras, “Éden à Oeste” (Ainda inédito no Brasil), apresentam uma visão de dentro do problema, em uma guerra aparentemente invisível, travada entre cidadãos franceses e clandestinos.

Se o cenário de “Entre os Muros…” era uma escola ginasial e o de “Éden à Oeste”, as ruas francesas, Um Profeta (Un Prophète, 2009), dirigido por Jacques Audiard, transporta a discussão para o cotidiano de uma prisão federal francesa, apresentando suas regras e níveis hierárquicos que acompanham o confinamento de uma população bastante heterogênea; tudo isso apresentado sob o ponto de vista de Malik El Djebena (Tahar Rahim), um jovem de 19 anos, nascido na França, de pais árabes, condenado a seis anos de prisão por um crime não especificado na trama, que sofrerá “o pão que o diabo amassou” para aprender como funcionam as regras do confinamento. Diferentemente dos dois filmes citados, Um Profeta não se detém apenas em evidenciar os problemas carcerários e consequentemente sugerir soluções para ele, mas também se propõe a oferecer entretenimento de qualidade, numa espécie de cinema “políticopipoca”, no qual a transformação do protagonista é fio condutor da história.

Inicialmente, Malik é apenas um marginal semianalfabeto – como um Tony Montana (protagonista de Scarface) europeu -, a partir de seu contato com Cesar Luciani (Niels Arestrup), um velho gangster de origem corsa, que propõe proteção ao rapaz caso ele aceite matar Reyeb (Hichem Yacoubi), um preso de origem árabe e homossexual, o qual, por sua vez, oferece drogas a Malik em troca de sexo. Esse conflito inicial impulsiona todo o desenrolar da trama, que vai sendo costurada de forma engenhosa, moldando um cenário explosivo, pois segura a atenção da plateia a cada novo rumo da história, à medida que a relação de Luciani a Maliki se estreita. Tudo isso mostrado em um verdadeiro labirinto narrativo, auxiliado por títulos de capítulos e legendas que apresentam e dão destaque a determinados personagens secundários, o que exige olhos atentos para não se perder em meio à complexidade narrativa do roteiro. Além do roteiro, os demais pontos positivos são as estupendas atuações de todo o desconhecido elenco, em especial Tahar Rahim, merecidamente vencedor do prêmio de melhor ator e ator revelação no último Cesar (principal prêmio francês) e Niels Arestrup – também vencedor do prêmio de ator coadjuvante- que parece ter nascido para o papel.

Aliado às grande atuações, o trabalho do departamento de arte na construção de cenários e maquiagem- extremamente convincentes – resultou em um retrato bastante convincente de uma prisão, o que torna difícil separar personagens e cenários, reproduzindo sensações visuais que transportam o espectador para dentro do cárcere.

Com essa fita, Jacques Audiard, filho do roteirista e diretor Michael Audiard (ex-assistente de François Truffaut ), merecidamente entrou para o time dos grandes nomes do cinema europeu, tendo recebido o prêmio especial do júri no festival de Cannes de 2009 e a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010 – vencida pelo não menos qualificado “O Segredo de Seus Olhos”. Nada mal para um cineasta que realizou apenas cinco filmes.

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Murderball

A primeira vista podemos imaginar que Murderball (2004) trata-se de um filme sobre experiências de jogadores de rugby sobre cadeiras de rodas e sua lições de vidas, propagando ao longo de seus oitenta minutos mensagens positivas e muita autopiedade. Se pensou dessa forma você está completamente errado. Tanto que, em determinado momento, um dos jogadores discursa à câmera sobre as parolimpieadas : “Não viemos aqui competir por um abraço, nós queremos a medalha de ouro”. E é sobre este sentimento que os diretores Henry Alex Rubin e Dana Adam Shapiro direcionam seus olhares, passando longe da panfletagem politicamente correta  ou do sentimentalismo barato.

O jogo, pouco conhecido no Brasil –   tão violenta quanto sua versão de grama, muito popular na Inglaterra – gera paixões à flor da pele, prova disso é Joe Soares, técnico da seleção do Canadá, que deu as costas para seu próprio país – EUA -, após ser cortado da seleção, levando para o país vizinho todas as táticas e segredos que fizeram com que os americanos exercessem grande hegemonia no esporte. Joe passa a ter como principal meta acabar com a fama de potencia dos Estados Unidos, ironicamente fama que ele mesmo ajudou a construir.

Do outro lado quem confronta com o fanatismo de Joe (que teve um ataque do coração durante as filmagens) é Mark Zupan, uma espécie de Lionel Messi do Murderball, paralisado desde seus 16 anos de idade, após um acidente de carro. Mark é o principal porta-voz do esporte nos Estados Unidos, fazendo palestras e vídeos publicitários sobre o assunto. É no aguarda do embate entre Joe e Mark, nas olimpíadas de Atenas, que o filme se concentra, manipulando as cenas de forma a aumentar a rivalidade entre  eles – em certos momentos lembrando a série Rocky.

Paralelamente conversas descontraídas sobre sexo, amizades e reabilitação são apresentados, entretanto o que realmente dá originalidade ao longa é a forma como é criado o suspense e a tensão dos jogos, ficando difícil, até mesmo para quem não curte esportes, ficar indiferente ao que acontece na tela.

Outro mérito do documentário é como ele preserva as complexidades de seus personagens, deixando transparecer as individualidades de cada um dos praticantes, logo já não os vemos como cadeirantes ou especiais, mas sim como atletas tão admiráveis como um Pelé ou Usain Bolt.

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Cotton Club

“Cotton Club” de 1984 marcou a volta de Francis Ford Coppola ao universo da Máfia, dez ano após o lançamento de “O Poderoso Chefão 2”. E o resultado não poderia ser mais inusitado, já que o filme mistura  violência e dança na tentativa de alcançar novos admiradores do gênero que consagrou o  diretor americano em 1972.

Distante do memorialismo, “Cotton Club” investe em um clima artificial e de pouca profundidade, que pouco lembra a veracidade com que era apresentada a história que consagrou Marlon Brando e Al Pacino. Mesmo sendo evidente que não se trata de um filme sobre a violência, o diretor ainda parecia se preocupar em não deixar transparecer que a trama serve apenas como desculpa para bailarinos e bailarinas mostrarem seus rebolados, inserindo cenas de extrema violência.

O elenco conta com Richad Gere (já naquela época pouco expressivo), Nicolas Cage (ainda com cabelos) e Diane Lane (em sua fase mais deslumbrante). Já o roteiro, adaptação da obra de Jim Haskins, teve  a colaboração de Mario Puzo (escritor de “O Poderoso Chefão”), mas este não carrega nenhuma identidade com o autor, já que passou por várias cabeças antes do roteiro final ficar pronto.

As coreografias são pouco exuberantes, fazendo referência aos musicais dos anos 20 e 30, o que acaba salvando os números é o jazz envolvente que serve como trilha sonora. Contando com poucos artifícios narrativos, deixando a sensação de termos acompanhado um verdadeiro  “teatro filmado” no fim da projeção. Quem curte musicais verá evidentes semelhanças entre a  fita e Chicago de 2002, dirigido por Rob Marshal, que carrega elementos narrativos bem superiores ao filme de Coppola.

O tempo fez provar que esta fase marcou a decadência do diretor, que hoje garimpa, ao longo do globo, recursos para produzir seus filmes – é necessário lembrar que nesta época  se revezava em ótimas produções,  como “Rumble Fish”, e bombas, do estilo de “O Fundo do Coração” de 1982. Talvez “Cotton Club” esteja situado entre as duas fitas, pois genialidade e mediocridade vivem em harmonia na produção.

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Nota – Kill Bill Vol.1

Prezados Leitores,

Infelizmente, por motivos pessoais, hoje não será publicada nenhuma crítica como já é de costume às segundas-feiras. O filme programado era “O Príncipe da Pérsia” da Disney.  Para tentar compensar ,de alguma forma, a falta de novidades, fiquem com a antológica sequência final de Kill Bil Vol.1, que conta com a canção  “Misunderstood”  versão de Santa Esmeralda do  clássico do The Animals. Com certeza bem mais interessante que a pranchinha do Jake Gyllenhaal.

Um forte abraço

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Dirigido por Sérgio Machado (do excelente Cidade Baixa), “Quincas Berro d’Água” carrega em sua identidade uma forte ligação com a Bahia, portanto quem tem uma maior intimidade com a cidade de Caymmi compreenderá o espírito da produção com mais facilidade.

O roteiro trata-se da adaptação de A morte e a morte de Quincas Berro dÁgua de Jorge Amado, e consegue extrair todo o clima boêmio da cidade, tanto na forma como foi feita a ambientação de bares e ruas, quanto na forma como seus personagens interagem entre si.

Para conseguir esta sintonia um time de peso foi convocado. Liderados por Marieta Severo e Paulo José (incrível como até atuando como morto consegue arrancar gargalhadas), além de um elenco de apoio em atuações competentes – destaque para Mariana Ximenes e Luis Miranda .

Mesmo garantindo a diversão, Quincas Berro D’Água deixa a impressão de ser um filme que tende mais para o saudosismo do que para as gargalhadas, carregando o mérito de ser fiel ao estilo de Jorge Amado, mas que não consegue reproduzir toda a ironia existencialista  do texto, deixando a sensação de que poderia ser uma experiência ainda mais satisfatória.

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A Terceira Idade de Romeu e Julieta

Por Bruno Marques

19/05/2010

Não é novidade adaptar Romeu e Julieta para o cinema. Ao longo dos 115 anos de existência da sétima arte, foram muitas as vezes em que acompanhamos, com diferentes roupagens, a tragédia de dois jovens perdidamente apaixonados, separados pelo confronto  entre suas famílias. Durante esse tempo, esse arquétipo do amor juvenil, criado por William Shakespeare, já passou por muitas transformações. Tanto que os dois “pombinhos” já embarcaram no Titanic – no longa de James Cameron  de 1997 -, viveram em meio ao tiroteio de gangues – na adaptação de Baz Luhrmann de 1996 -, e até transportados para uma favela carioca – em “Maré” de Lúcia Murat.

Com tantas adaptações, ficaria difícil imaginar que alguém conseguiria inovar um estilo que hoje é sinônimo de clichê. Porém, o roteirista porto-riquenho Jose Rivera (Diários de Motocicleta) conseguiu tal feito, ao mostrar como seria a vida do casal na terceira idade em Cartas para Julieta (Letters to Juliet, 2010), dirigido por Gary Winick (“De Repente 30”) e protagonizado pela nova queridinha do cinema americano Amanda Seyfried (“Querido John”).

No longa, a moça interpreta Sophie, uma jornalista iniciante, que viaja a Verona, Itália, com seu noivo – um ocupado dono de restaurante de Nova Iorque, vivido por Gael García Bernal– com o intuito de realizar uma viagem romântica. Mas a moça não contava que ele continuasse tão empenhado em resolver os problemas de seu empreendimento, transformando a viagem romântica em uma viagem de negócios.

Em meio ao tédio, Sophie inicia amizades com um grupo de mulheres contratadas pela prefeitura de Verona, que respondem a cartas deixadas por mulheres em busca de conselhos em um ponto turístico que representa a casa de Julieta. Acidentalmente a repórter encontra uma carta datada de 1951 e resolve responder.  Essa atitude faz com que a inglesa Claire (Vanessa Redgrave), autora da carta, viaje à Itália em busca do reencontro de seu amor.

Não se precisa dizer que o filme seguirá todos os artifícios estruturais da maioria das comédias românticas. Mesmo assim, a fita consegue cativar pela forma como a história é narrada, aliando cenas de romantismo com um humor muito agradável.  Além de ser impossível, para espectadores mais sensíveis,  não se emocionar com os encontros e desencontros de Claire e Lorenzo, por sua vez  vivido por Franco Nero (“Django”), casado com Redgrave na vida real.

Entretanto, o verdadeiro casal protagonista é formado por  Sophie e o neto de Claire,  Charlie, interpretado por Christopher Egan. Essa relação é o outro ponto positivo da releitura do clássico shakespeariano, que manda os clichês para o espaço, ao inserir um herói rude e mal-humorado, que acaba conquistando a heroína à base de muito sarcasmo e pouco romantismo.

Cartas para Julieta prova que ainda é possível ser original mesmo utilizando uma estrutura de mais de quatrocentos anos, mostrando que a tragédia de Romeu e Julieta ainda pode render boas  adaptações.

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Sim, É Mais Um Besteirol Americano

Por Bruno Marques

15/05/2010

É difícil entender o que se passa com as distribuidoras. Enquanto bons filmes chegam ao Brasil diretamente em DVD – como foi o caso de “Guerra ao Terror -, vemos  produções, de gosto duvidoso,  serem lançadas na tela grande. Esse é o caso de Carros Usados, Vendedores Pirados (The Goods: Live Hard, Sell Hard,2009) uma comédia besteirol, produzida por Will Ferrell, que tenta fazer graça, apelando para o sexo, para o preconceito e para propaganda de extrema-direita.

A história acompanha Don Ready (Jeremy Piven), um folclórico vendedor de carros usados, em sua missão de salvar a concessionária de Ben Selleck (James Brolin), um saudoso vendedor de carros americanos à beira da falência. Para isso, Don contará com a ajuda de sua equipe, composta por Jibby Newsome (Ving Rhames), um  negro que sofre de compulsão sexual, Babs Merrick (Kathryn Hahn), vivendo a morena promíscua – a qual banaliza as vendedoras de automóveis trocando  sexo por comissão –  e  Brent Cage (David Koechner), um personagem que pouco diz a que veio, servindo apenas como trampolim para piadas homofóbicas.

É difícil enxergar diferenças entre os arquétipos desses personagens. Don, por exemplo, é um metrossexual metido a conquistador, adepto de um topete exagerado, costeleta e jeito de cowboy, tal qual o protótipo do herói clássico americano, que, de tão démodé, fica difícil compreender os motivos que levaram o diretor Neal Brennan a reeditá-lo.

Completam o time de aberrações um menino de 10 anos no corpo de um adulto de trinta, um veterano de guerra racista, um dançarino de boy-band (Ed Helms, do excelente “Se Beber Não Dirija”) namorado de Ivy Selleck  (Jordana Spiro), que, por sua vez representa o affair de Don Ready, dando vida a uma loira inocente, dividida entre o amor do herói espertalhão e o do noivo estúpido.

Se não bastasse tudo isso, ainda temos que conviver com uma forte propaganda mercadológica – ao fazer lobby contra carros orientais – e discurso de apologia ao tabagismo – sob argumento pífio de que durante o tempo em que era permitido fumar em voos comercias o homem chegou à Lua. Tal descompromisso com códigos de ética rendeu à produção um processo por preconceito, movido pela sociedade nipo-americana, que se  sentiu ofendida por uma das tantas piadas de mau gosto presentes na produção.

Carros Usados, Vendedores Pirados simboliza um tipo de cinema que não tem mais espaço em um mundo globalizado, em que há um grande esforço para acabar de vez com preconceitos culturais e raciais, e no qual não cabem mais visões xenofóbicas, como as presentes nesta “comédia”.

Se o filme inteiro foi uma piada, não teve a menor graça.

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