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Archive for abril \29\UTC 2010

Pecados de meu Pai

Muito além de Don Corleone

Por Bruno Marques

30/04/2010

Enquanto o competente diretor americano Terrence Malick não finaliza a adaptação de Matando Pablo: A caçada final ao rei da cocaína, livro sobre a investigação que terminou com a morte do maior traficante de drogas de todos os tempos, Pablo Escobar (ex-líder do Cartel de Medellín), chega aos cinemas brasileiros o documentário argentino Pecados de mi Padre (2009), dirigido por Nicolas Entel, que conta a trajetória do criminoso  sob o ponto de vista de seu filho, Juan Pablo Escobar –que mudou seu nome para Sebastián Marroquin após fugir da Colômbia em1993 – e da esposa de Pablo, Maria Victoria Henao.

Contudo, não espere que o colombiano seja descrito como um monstro frio e sanguinário que nos acostumamos a imaginar. Pelo contrário, em família, ‘El Patrón’ (‘O Patrão’, como ficou conhecido popularmente) era tido como marido exemplar e pai dedicado, com direito a mimos simples como canções de ninar e outras extravagâncias, como um zoológico privado com mais de 3500 hectares e 200 espécies de animais.

Para montar este complexo quebra-cabeça sobre a personalidade do contraventor, o jovem cineasta de 35 anos realizou, durante 4 anos, uma minuciosa investigação, que se iniciou a partir do ingresso de Escobar na política, passando pelos assassinatos de seus principais inimigos e pela sua prisão em 1991 – curiosamente em uma luxuosa cadeia construída por ele mesmo-, até chegar à sua morte em 1993 pelas mão da Search Bloc (Unidade de Operações Especiais Colombiana, formado por policiais incorruptíveis treinados pelo exército americano, e que tinham como única missão prender Pablo Escobar).

Esta boa investigação derrapa na falta de profundidade, já que tudo que vemos na tela está documentado em jornais, programas de TV e na internet, adicionando muito pouco aqueles que já conhecem a carreira de Pablo Escobar.

Além de recriar os passos do traficante até o tumulo, Nicolas Etel optou por mostrar a mesma história também  sob a ótica dos filhos de Luís Carlos Galán (ex-candidato à Presidência da Colômbia) e Rodrigo Lara Bonilla (ex-ministro da Justiça), ambos assassinados pelo Cartel de Medellín na década de 80.

Essa decisão de apresentar “os dois lados da verdade” e, consequentemente, os dois lados do sofrimento, só contribui para o documentário, que, mesmo contando com um formato demasiadamente tradicional, consegue levar o público à reflexão ao propor uma nova filosofia pacifista.

Pecados de mi Padre provavelmente não será lembrado como o documentário definitivo sobre o homem que foi responsável por 80% do mercado mundial de cocaína e que morreu levando muitas histórias obscuras para o caixão, mas, por outro lado, a fita servirá como uma forte aliada em favor da paz.

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“2046 – O segredo do amor” (“2046”,2004), dirigido por Wong Kar-way, é o último filme da trilogia romântica – termo recusado pelo diretor – iniciada em “Dias Selvagens” e seguido por “Amor à flor da pele”.

Na história, o personagem Chow Mo-Wan, o mesmo de “Amor à Flor da Pele”, volta a Hong Kong após uma temporada em Cingapura para trabalhar em uma obra de ficção científica chamada “2046”. Enquanto desenvolve seu romance, Chow tenta conviver sem o amor de Li-Zhen Xu – Personagem do filme anterior. Paralelamente se envolve com quatro diferentes mulheres, que dão a ele novas  visões sobre o amor, o que contribui para que desenvolva seu romance como metáfora de sua triste condição.

Como nos dois longas anteriores, “2046…” discute a relação entre o sofrimento e a solidão de quem vive à espera do amor, procurando através de uma narrativa lenta e, por vezes entediante, transportar esse  sentimento para o fora da tela, fazendo uma atualização implícita da trilogia sobre a incomunicabilidade realizada pelo italiano Michelangelo Antonioni nos anos 60, na qual casais vivem à procura de sintonia em um mundo em que as palavras não conseguem traduzir sentimentos .

Além da influência de Antonioni, é nítida a  de “Asas do Desejo” e de sua continuação “Tão Longe, Tão Perto”, ambos de Wim Wenders, que acompanha um anjo em suas jornada em busca de uma compreensão racional do amor . Já no que diz respeito à estética, remete à trilogia do pós-guerra , dirigida Rainer Werner Fassbinder, da qual “O Casamento de Maria Braun”, “Lola” e “O Desespero de Veronika Voss” fazem parte.

Porém, todas estas influências servem, apenas, como base para que o cineasta desenvolva seu próprio universo fílmico, inventando novos perfis de comportamento para seus personagens, como uma fusão entre o estilo intimista asiático com o modo latino de reagir ao amor. Em “2046 – O Segredo do Amor”, tal  mescla é percebida de maneira mais clara na opção por canções latinas para traduzir os sentimentos dos personagens e, principalmente, no relacionamento cafajeste de Chow Mo-Wan com a prostituta Bai Ling (Zhang Ziyi).

No campo da narrativa, a forma como as passagens de tempo são representadas, por conta da total liberdade com  que o diretor manipula o tempo de forma não cronológica, privilegiar elipses  não mensuráveis, flashbacks e narração atemporal. Essas opções propõem uma reprodução do funcionamento da memória de Chow Mo-Wan.

“2046 – O Segredo do Amor” vigora como a mais caótica criação realizada por Wong Kar-Way. É fácil se perder no meio de tantos personagens que parecem estar em mutação constante, histórias paralelas e citações aos dois filmes anteriores. Proposital ou não, esse caos só favorece o longa, deixando prevalecer o tom enigmático que corresponde ao inexplicável sentido do amor.

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Chico Xavier

É totalmente assumida a postura de Daniel Filho de realizar filmes com grande apelo comercial, visando garantir boas cifras,  principalmente das classes C, D/E da população, que tiveram, com o governo Lula, um aumento significativo em suas rendas. Esta estratégia vem dando bons resultados, vide a arrecadação espetacular da franquia “Se eu Fosse Você” e da adaptação da obra de Eça de Queiroz “Primo Basílio”.

Contudo, mais surpreendente que as performances nas bilheterias  é a forma como o diretor consegue atrair público sem apelar para o folhetim televisivo, investindo em uma linguagem puramente cinematográfica. Seu novo longa, “Chico Xavier”, comprova que o diretor sabe discursar as grandes platéias, sem subjugar a capacidade de compreensão do público.

O roteiro é baseado no livro “As Vidas de Chico Xavier”, escrito por Marcel Souto Maior (“O Outro Lado da Rua”), segue os passos do médium desde sua infância até a velhice, construindo de forma observacional, um retrato da trajetória daquele que se tornou o maior fenômeno do espiritismo nacional.

Este distanciamento só contribui para a fita, que foge do sentimentalismo barato e da panfletagem religiosa, resultando num filme universal, o que poderia ter se transformado em uma obra espírita. somente este distanciamento já seria motivo para aplausos, porém, ainda sobra espaço o uso de uma linguagem cinematográfica sofisticada – principalmente na cena em que a câmera literalmente invade o ouvido do protagonista  -.

Nelson Xavier e Ângelo Antônio interpretam  diferentes fases da vida do religioso. Ambos, além da  aparência física, conseguem transmitir  a mesmo  carisma e serenidade  que caracterizavam o espírita. Já Matheus Costa, ator que interpreta Chico durante sua infância, parece não ter assimilado bem o papel, mesmo se esforçando nas cenas de maior carga dramática, acaba causando certo constrangimento com seu tom artificial digno de criança prodígio vencedora de concurso de novos talentos.

Além de Nelson Xavier  e Ângelo Antônio, destacam-se Tony Ramos e Christiane Torloni, protagonistas da trama paralela à de Chico, que acompanha o casal após a perda de seu filho, acidentalmente morto  por um amigo. Coube aos dois a função de protagonizar a cena de maior emoção próximo ao fim do longa, conseguindo sensibilizar até os mais duro dos espectadores.

Muito se falou de problemas técnicos, especialmente no que diz respeito ao som – realmente no início sentimos falta de legendas -, mas com um pouco de boa vontade dá para superar este deslize (errar é humano!). Superado os defeitos técnicos, o longa comprova a qualidade do diretor como o grande cineasta das massas, comprovando seu talento tanto em comédias, quanto em dramas.

Vida longa ao cinema  de Daniel Filho!

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Salve Geral

Em maio de 2006, mais precisamente no fim de semana do dia das mães, todo Brasil acompanhou perplexo  uma das maiores provas de poder do crime organizado de nossa história recente, quando a facção criminosa PCC comandou diversos crimes na maior cidade do Brasil em resposta a transferência dos principais lideres da organização para presídios de segurança máxima no interior paulista.

Aproveitando este cenário dramaturgicamente rico, Sérgio Rezende (diretor de “Zuzu Angel”) elaborou o roteiro que viria se transformar em “Salve Geral” (2009), uma fusão entre ficção e realidade, que apresenta três diferentes pontos de vista  do estado de sítio.

Estes três núcleos dramáticos são formados pelo comando da polícia, pelo “partido” ou liderança criminosa e pela população civil. Sendo a última representada  por Lúcia (Andrea Beltrão), uma professora de piano,  determinada a tirar seu filho Rafael (Lee Thalor) de trás das grades,  preso em flagrante por homicídio durante uma  corrida clandestina.

Mesmo sendo  um roteiro de ficção, “Salve Geral” anda de mãos dadas com a realidade, já que apresenta  uma dentre as muitas possibilidades que justificariam as ações criminosas . Sendo verdade ou não, o que importa, de fato,  é o salve (recado) dado pelo cineasta, ou seja,  somente em um sistema penitenciário falido, comandado por  autoridades corrompidas,  seria possível criar um cenário como aquele de 4 anos atrás .

A produção em si não acompanha o mesmo capricho do roteiro, visto que a trama muitas vezes aparenta ser “maior” que o orçamento do longa, resultando em deslizes na direção de arte, principalmente por conta da caracterização da cidade de São Paulo, que não aparenta estar passando pelo caos que serve como pano de fundo para as ações. Outro efeito colateral da aparente falta de dinheiro,  fica por conta do fraco elenco de apoio, bem abaixo dos protagonistas, que conta com  Andrea Beltrão e Denise Weinberg, que vive a vilã Ruiva,  em atuações inspiradoras.

Outra boa impressão deixada pelo longa é sua trilha sonora assinada por Miguel Briamonte, remetendo ao universo macabro de Alfred Hitchcock, sendo a peça fundamental para criar o clima de tensão que a trama necessitava.

Muito se falou da apologia ao tráfico de drogas e da recorrência de tramas violentas levadas as telas pelo cinema nacional. Nenhuma das duas críticas são justificáveis, a primeira, inclusive, só pode ter sido dada por pessoas que não deram a atenção que a fita merecia. Já a segunda poderia se enquadrar em  obras como “Ônibus 175” e “Tropa de Elite”, porque realmente vivemos uma fase do cinema nacional em que apostar em violência é apostar em boa bilheteria, entretanto o filme de Rezende passa longe do discurso raso, já que vai fundo nas origens dos fatos, tendo muito cuidado em não apontar mocinhos e  bandidos, ou propor soluções ingênuas.

Talvez maior problema de “Salve Geral”  tenha sido sua indicação como representante brasileiro  ao Oscar, o que despertou muitas expectativas que a película não pode preencher, pois não faz parte do modelo pirotécnico hollywoodiano, pelo contrário, se trata de uma obra para aqueles interessados em assistir uma séria exposição dos graves problemas do sistema penitenciário  nacional, sem deixar que tiros e explosões desviem o foco da discussão.

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Um filme, quando bem realizado, expõe de forma cristalina o estado de espírito do cineasta no momento em que construía sua obra.Vide “Apocalypse Now”, que  exala, em cada fotograma,  o caos que vivia Francis Ford Coppola, quando filmou o clássico , convivendo com surtos suicidas, problemas de relacionamento  com sua equipe, dificuldades orçamentárias, além de seu consumo diário de quilos de cocaína.  

No Brasil, percebe-se em  “Terra em Transe”, dirigido por Glauber Rocha, um misto de frustração e impotência frente ao golpe de 1964, ao fazer uma viagem dentro da consciência de um militante político pós-fracasso de uma revolução socialista. 

Já “A Festa da Menina Morta”, dirigido por Matheus Nachtergaele, deixa a impressão de ser uma obra sustentada pelas descobertas do diretor, como se a nova função estivesse sendo compreendida na prática, haja vista que por muitas vezes seu experimentalismo resulta em perspectivas brilhantes; enquanto, em outros, extrapola o uso de artifícios “artísticos”.  

De toda forma, sendo ou não feliz em suas escolhas, o que realmente importa é a ousadia do cineasta ao tentar  construir uma história “simples” de  modo mais atraente, deixando de lado os artifícios básicos de narrativa, para investir na criação de um estilo próprio. 

E os ensaios do realizador não estão  presentes somente nas cores, nas luzes ou nos enquadramentos.Suas ousadias vão além. A começar pelo roteiro pós-dramático, que observa o fanatismo religioso, usando uma seita miscigenada como estudo de caso.  

O culto em questão é baseado na santificação da menina desaparecida, que teve um pedaço de sua roupa achado por Santinho,  personagem de Daniel Oliveira,  que por sua vez passou a ter status de santo em uma pequena cidade à beira do Rio Solimões.

Não há julgamentos ou respostas, o que importa é o registro de um dos muitos exemplos da religiosidade do povo brasileiro, que, por vezes, engloba diferentes tipos de celebração, saindo do campo espiritual e abrindo espaço para prazeres carnais, como a bebida, prostituição, além de espetáculos teatrais.  

A  teatralidade não fica restrita somente às apresentações artísticas da festa, visto que o culto em si já é fruto de encenações, ficando a cargo de  Santinho, a responsabilidade de criar a ponte entre o mundo físico e o universo sobrenatural da religião.  

Mesmo contanto com excelentes atuações e arrojo visual, “A Festa da Menina Morta” acaba “passando do ponto” em alguns momentos, principalmente  quando insere fatores paralelos que não dizem respeito ao universo da seita, como a relação incestuosa entre Santinho e seu pai (Jackson Antunes), ou quando perde o controle nas cenas de improviso. 

Mas esses pequenos detalhes não apagam a brilhante estreia do ator por trás das câmeras, apresentando um olhar inocente e inquieto, que visa compreender um pouco da religiosidade brasileira, deixando que o público explore esse universo sem impor julgamentos.

 

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Sábadão, dia quente, praia, braço quebrado. É nem tudo é perfeito.

Queridos leitores infelizmente estou debilitado, mais precisamente, estou com a patinha quebrada. Nunca imaginei que fosse tão difícil escrever, somente, com a mão direita. Já não sou nenhum Machado de Assis com as duas, que dirá com uma só.

Mas vida que segue!

Enquanto curto  o calor, coceiras e o incomodo de ficar com uma massa petrificada no membro esquerdo, assisti, novamente, ao último filme de um dos melhores diretores contemporâneos, David Fincher.

O curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008), estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett, além de contar com a participação especial da musa de Derek Jarman, Tilda Swinton, mostra que uma adaptação pode, sim, superar a obra original, neste caso, o conto escrito por F. Scott Fitzgerald.

O longa trás, novamente, a estética videoclipe que é marca registrada do diretor, é só lembrar de “Vogue” da Madonna e “Only” do Nine Inch Nails e verá muitas semelhanças com o longa, principalmente na sequencia  em que Daisy, personagem de Cate Blanchett, sofre um terrível acidente – resultando além da beleza das imagens (captadas pelo chileno  Claudio Miranda), em uma ótima  reflexões sobre o destino.

Uma pena que a produção tenha sido “jogada para escanteio”,  após a perda do prêmio de melhor filme no Oscar 2009 para “Quem Quer ser um Milionário”, já que se trata de um dos grandes filmes da década de 2000.

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O pior de Roma

Por Bruno Marques

14/03/2010

Vamos direto ao assunto, Quando em Roma (when in Rome, 2010) é um péssimo filme. Sabe-se lá onde estavam as cabeças dos roteiristas David Diamond e David Weissman (também roteiristas do recente “Surpresas em dobro”) quando começaram a imaginar esta comédia romântica com toques de fantasia.

O script segue os passos de Beth (Kristen Bell), uma jovem curadora de artes plásticas, que vive uma fase de grande carecia afetiva, e que vê sua vida mudar ao viajar a Roma para participar do casamento de sua irmã. Durante a cerimônia conhece Nick (Josh Duhamel), um jovem bem humorado que rapidamente conquista seu amor. Porém, Beth se decepciona ao descobrir que o rapaz vive um relacionamento amoroso com uma italiana.

A desilusão faz com que a jovem tome a inesperada atitude de saltar dentro de uma fonte mágica para retirar moedas com intuito de roubar os desejos amorosos de outras pessoas. Em decorrência disso, os donos dessas moedas (incluindo Nick) passam a persegui-la em busca de seu amor.

A partir daí, por incrível que possa parecer, a história só piora. Todo desenvolvimento da trama é baseado nas idas e vindas do casal protagonista, ora separados pela ira dos deuses do amor, ora por  investidas dos outros três enfeitiçados.

Mas a fita, infelizmente, não fica só no romance, ainda sobra espaço para tentativas frustradas de criar situações engraçadas, além de dramas forçados e discussões irrelevantes sobre relacionamentos amorosos.

Nem mesmo participações especiais de rostos conhecidos como os de Danny DeVito e Anjelica Huston dão credibilidade ao projeto dirigido por Mark Steven Johnson, diretor do também insuportável “Motoqueiro Fantasma”.

É difícil encontrar qualidades em Quando em Roma. Talvez a Cidade Eterna seja o único ponto positivo da produção. De resto, apenas uma colcha de retalhos feita com o pior do que cada tipo de gênero pode oferecer.

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