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Archive for novembro \30\UTC 2009

Mother

No final dos anos 50 o cinema Hollywood entrou em grande crise, por conta da pouca arrecadação dos filmes produzidos por lá, fazendo com que os grandes estúdios perdessem seu poder de atração em todo mundo. O principal fator que contribuiu para o esvaiament das salas, foi que o modelo norte-americano de se fazer cinema gradativamente foi se tornando obsoleto ao longo dos anos, e mesmo com os esforços dos grandes estúdios, este modelo não conseguia se reinventar. Simultaneamente em outras partes do globo terrestre surgiam movimentos cinematográficos  que contestavam esse modelo, dentre eles a Nouvelle Vague francesa e o cinema novo brasileiro. O tempo então fez com que a hegemonia americana voltasse a dominar o mercado, mesmo assim, de tempos em tempos surge um novo pólo que ameaça este grande império cinematográfico.

Atualmente o cinema asiático, principalmente as produções vindas da  Coréia do Sul, são os grandes vilões dos estúdios da “terra do Tio Sam”. “Mother” (Madeo,2009) é um bom exemplo de como a industria de cinema naquele país conseguiu se desenvolver com suas próprias pernas, seguindo a risca o modo clássico de se fazer filmes comerciais, porém, com grandes inovações técnicas.

O filme é dirigido por Joon-ho Bong, diretor do “clássico contemporâneo”: “O hospedeiro”, além de participação no recente “Tokyo!”. Conta a história da luta de uma mãe que tenta provar a inocência de seu filho deficiente, após a misteriosa morte de uma menina no bairro em vivem.

 Kim Hye-já (equivalente a  uma Fernanda Montenegro Coreana), interpreta a mãe em questão. Sua atuação é fenomenal.Não é possível que não vão dar todos os Oscar’s, globos de ouro, Kikitos e raspainhas premiadas para esta mulher.Já que sua performance é de extrema polivalência , seu personagem caminha por diversas direções para formar o quebra-cabeça que explique o que ocorreu no dia do assassinato. As vezes ela é uma humilde senhora vendedora de plantas medicinais, já  em outros momentos ela atua a margem da sociedade, como por exemplo, tentando manipular as provas do crime. Durante o filme não sabemos se amamos ou odiamos a personagem título,  tamanha é a mutação de seu personagem durante os 120 minutos de projeção.

Mesmo com atuação visceral de Kim Hye-Já, o filme também tem espaço para Joon-ho Bong mostrar seu talento. Sua câmera exerce grande autonomia durante o filme, não tendo apenas  a função de seguir os atores em cena, além de estar sempre pronta a apresentar os ângulos mais improváveis das ações.

Outro grande mérito do filme é a forma como o suspense é construído, flui tão bem que quase lembra uma sucessão de pequenas notas musicais, como se estas cenas formassem uma deliciosa sinfonia, onde ao invés de som,  produzem o frio que congela  a espinha de quem acompanha a trama.

Acredito que neste ano de 2009, o cinema Sul-Coreano mais uma vez se reafirmou como um pólo exportador de filmes que veio para ficar, se ainda não compete de igual para igual com os filmes americanos, acredito que ano após ano o país vai construindo  terreno para ganhar mais espaço gradativamente.Acredito que “Mother” seja o melhor filme produzido por aquelas bandas este ano, mesmo tendo concorrentes de peso como : “sede de Sangue” e “O caçador”. Hollywood é que se cuide.

Nota 9,0

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O Caçador

Sou um  grande fã de filmes Noir, diferentemente das diversas pessoas que acham que o estilo ficou para trás nos longinquos anos 40-50, e que filmes como “Blade Hunner” e “Chinatown” são apenas homenagens ao estilo, acredito que “cinema Noir” nunca desapareceu, já  que seu estilo tanto visual e a forte  ambiguidade de seus personagens está presente em diversas produções que vão desde filmes como : “Fargo” e “Gosto de Sangue” dos irmãos Coen, além dos recentes “Batman Begins” e “Cavalheiro das Trevas”.

Outro bom exemplo de que o film Noir não acabou é “O Caçador” (Chugyeogja ,2008), filme de estréia do coreano Hong-jin Na. A trama acompanha uma estressante noite na vida de Joong-ho Eom, ex-detetive da polícia, que se tornou cafetão por problemas financeiros. O gigolô é obrigado a voltar à ativa quando suas “empregadas”, vão desaparecendo de forma misteriosa. Ao longo de suas investigações, Joong-Ho, se depara com um serial killer que tem como sua principal marca: capturar e torturar “mulheres da vida”. Mesmo com fortes indícios de que este homem foi o responsável pelo desaparecimento das prostitutas, o ex policial terá que recolher provas que indiquem o paradeiro das vítimas, além de provas que incriminem o marginal.

O roteiro assinado pelo próprio diretor, sendo este o fator que mais enche os olhos na produção, sempre com grande leques de situações dramáticas que se entrelaçam impulsionando a trama.Todas as reviravoltas e conflitos morais dos personagens são realizados de forma coerente e bem estruturadas. Outro grande mérito do Script, são as cenas de suspense, quase sempre de tirar o fôlego, não deixando nada a dever a filmes como “Jogos mortais”.

Hong-Jin Na, começou bem sua carreira de cineasta, os 30 minutos inicias são de extrema tensão. Mostrando que filmes de atmosfera suja, com tramas que envolvem corrupção, perseguição e personagens nem sempre que seguem o manual do bons costumes, estão mais na moda que nunca, tanto no oriente quanto no ocidente.

Nota 8,5

 

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Julie & Julia

Acredito que a diretora Nora Eprhon não tenha tido muitas dificuldade para adaptar o livro “Julie & Julia” para o cinema, pois a história escrita por Julie Powell segue a mesma  linha dramática que a roteirista e diretora se acostumou a realizar desde seu primeiro (e excelente) roteiro : “Harry e Sally – Feitos um para o outro”. Tramas leves,  com cara de filme auto-ajuda, que o público, principalmente as mulheres, adora assistir.

O roteiro e o livro, giram em torno da vida da própria autora do romance. A partir das semanas que precedem seu aniversário de 30 anos de idade, Julie (Amy Adams), está confusa frente sua nova realidade de mulher “balzaquiana”. Trabalhando em um telemarketing sem grandes perspectivas, além de acompanhar a ascensão social de suas amigas, a moça resolve dar um sentido para sua existência ao tentar realizar em 365 dias as 524 receitas do clássico livro “Desvendando a Arte da Cozinha Francesa”, escrito pela cozinheira  e apresentadora de Tv americana : Julia Child. Enquanto realiza seu projeto, Julie posta em um blog a preparação e o resultado de cada um dos pratos.Em pouco tempo seu diário eletrônico se transforma em um grande sucesso da internet.

Paralelamente aos acontecimento da vida da “blogueira”,  é apresentado o cotidiano da própria Julie Child (Meryl Streep), desde sua chegada a França no fim dos anos 40, até a publicação do livro que a consagrou nos Estados Unidos. Mostrando a transformação da ociosa mulher de um diplomata americano, na lendária apresentadora de TV.

O filme procura evidenciar as muitas semelhanças entre as duas personagens, desde a vida pessoal de ambas, suas indecisões e principalmente a força de vontade das duas mulheres. A fita faz uso de uma montagem muito inteligente para entrelaçar as duas histórias , lembrando  bastante o método utilizado no excelente filme “As horas”, dirigido por Stephen Daldry, e que também contou com participação de  Meryl Streep.

A propósito,  Meryl Streep é o tempero que da gosto ao filme de Nora Ephron. É incrível o quanto a atriz é versátil. Sua atuação é arrepiante, principalmente para quem já viu a figura da verdadeira  Julie Child. Todos os pequenos detalhes foram incorporados a construção do personagem. Por isso, sua parte da história acaba ganhando mais destaque que os da apagada “blogueira” Julie.

 Recentemente  as mesmas Amy Adams e Meryl Streep  contracenaram juntas na ótima produção “Dúvida” de 2008, nele a atuação das duas esteve nivelada grande parte do tempo, diferentemente de “Julie & Julia” em que a veterana acaba sobressaindo.

No fim das contas “Julie & Julia” consegue ser um ótimo drama feminino, mesmo sendo previsível como quase todas as produções do gênero. Acredito que talvez tenha sido esta pretensão da diretora, realizar um filme não muito diferente dos clássicos filmes “sessão da tarde”. Porém, Meryl Streep acabou  roubando a cena novamente, transformando o filme em um produto melhor que a encomenda.

Nota  7,0

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CAMPANHA

…E adicione um comentário

Aproveitando o atual crescimento de visitas do meu blog, queria pedir para quem é freqüentador assíduo do site, que não deixe de inserir comentários sobre as críticas. Pode ser boa ou ruim, não interessa. O que interessa é participar.

Agradeço do fundo do meu coração a todos vocês que entram no meu blog ao qual cada semana tem um número maior de leitores (por incrível que possa aparecer).

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O homem do ferro

 

Por Bruno Marques

25/11/2009

 

Um homem observa de sua varanda uma grande paisagem de arvores até onde a vista consegue enxergar. O céu esta claro e ouvimos apenas o ruído de um cata-vento em forma de passarinho. Em seguida um narrador descreve o personagem  como um visionário, homem de grandes feitos, de admirável inteligência, poliglota e denominado “O construtor de uma nação”. É desta forma pretensiosa que se inicia o documentário “Eliezer Batista – O Engenheiro do Brasil”(2009).

O título e os adjetivos fazem referência ao engenheiro Eliezer Batista. Para quem não o conhece, ele é pai de Eike Batista, ex-marido de Luma de Oliveira e frequentador assíduo de colunas sociais. Já  quem o conhece sabe que esta personalidade tem importância tão grande, que só pode ser comparada a nomes como os de Getúlio Vargas e Visconde de Mauá, respeitado  tanto pelo

ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quanto pelo atual, Lula, além de ter participado do governo Collor. Mas aí, você, leitor, pode estar se perguntando: afinal,  o que de tão  importante fez este engenheiro para conseguir tamanho reconhecimento?

É a isto que o documentário tenta responder. Realizado por Victor Lopes, diretor de “Língua – Vidas em Português”, a fita mostra os diversos pontos de vista sobre a trajetória do engenheiro ferroviário que saiu de Nova Era, interior de Minas Gerais, para se tornar por duas vezes presidente da companhia Vale do Rio Doce e virar nome de usina hidroelétrica aos 85 anos. Além de sua  atuação na construção decisiva da estrada férrea Vitória-Minas,  sua participação na viabilização do projeto de Eldorado de Carajás, sua vida política e pessoal. Todos os fatos contados cronologicamente, de forma clara e objetiva.

O trabalho de pesquisa é outro destaque do longa. Não faltam belíssimas cenas retiradas de cinejornais, filmes institucionais e programas de TV raros, assim como gravações de rádio e notas de jornais, que ilustram bem os assuntos abordados, deixando-nos com a sensação de viagem no tempo, À medida que os fatos vão sendo revelados.

Contudo, o filme peca pelo excesso de elogios ao personagem, pois estas “sessões de tietagem” tiram um pouco do brilho das entrevistas. Em certos momentos, fica a dúvida se o relato é realmente coerente ou se trata apenas de uma vazia “rasgação de seda”. Estes exageros deixam o filme um pouco cansativo no final, fazendo com que uma voz no fundo da sua cabeça fique se perguntando: Tudo bem, ele é fantástico mesmo, mas será que Eliezer nem ao menos deixou a tampa da privada aberta em toda sua vida?

Esta tentativa de construção do mito de um super-homem é o que mais incomoda em documentários biográficos. Infelizmente, este tipo de incômodo está bastante presente no filme de Victor Lopes.

No fim das contas, “Eliezer Batista – O engenheiro do Brasil” não foge muito à regra do modelo clássico de documentário bem ao estilo “cabeças falantes”. Deixando a impressão de que se trata mais de uma vídeo homenagem, do que uma tentativa de realizar um documentário imparcial. Mesmo assim, acredito que Eliezer merecia um filme sobre sua vida, pois se trata de um brasileiro brilhante, que não é tão conhecido pelo grande público.

Nota : Bronze

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Código desconhecido

“Código desconhecido”

Algumas pessoas nascem com o dom de enxergar além do que a nossa retina é capaz de captar, conseguindo por exemplo extrair de um fato que pode ser considerado banal para alguns, um panorama do mundo em que vivemos. Sem dúvida o diretor austríaco Michel Haneke é um desses “iluminados”. “Código desconhecido”(“ Code inconnu: Récit incomplet de divers voyages”) , realizado em 2000, mostra  como a intolerância social e racial fazem parte do cotidiano dos franceses, sendo tão comum aos seus  habitantes que faz com que a xenofobia se torne invisível aos olhos dos habitantes da “cidade luz”.

Trata-se do primeiro filme do diretor realizado na França e conta com uma narrativa completamente desconstruída, dividida em três histórias paralelas que já na segunda sequência do filme entram em colisão. Diferente de obras menos autorais em que o climax é o “último suspiro” da película, “Código…” já começa em ritmo frenético quando Jean, um jovem branco francês, caminha por uma calçada e sem o menor motivo aparente joga um pedaço de papel encima de uma imigrante que pede esmola. Esta agressão faz com que o negro Amadou, professor de música que passava pelo local, intervenha pela dignidade da senhora, fazendo com que as diferenças raciais por parte de imigrantes, negros e europeus-nativos sejam aflorados. Quase sempre estes sentimentos são  escondidos  por traz de uma falsa indiferença. A confusão termina quando a polícia  chega para fazer com que a ordem passe a ser respeitada novamente, no fim Amadou é preso, Jean é solto e a imigrante é deportada ( a justiça nem sempre é justa). Haneke representa nesta  discussão de rua, o quanto o problema é grave, pois a intolerância racial não esta presente somente na forma como agem civis mais também na postura de autoridades representantes do estado.

Considero este um dos mais lindos plano-sequência que já assisti, pois a forma como toda a Mise-en-Scène é coreografada em um espaço enorme (se passa em dois quarteirões) é algo fabuloso.Segundo declaração do próprio diretor esta cena realmente ocorreu, tendo sido presenciada por ele quando  procurava um tema para o filme que viria ser o roteiro de “Código desconhecido”.

Em uma outra cena, aparentemente banal, um grupo de amigos conversam sobre a guerra da Bósnia, já que um dos integrantes da mesa havia voltado recentemente da zona de conflito, onde havia trabalhado como fotógrafo. Em determinado momento o homem dispara a bombástica afirmação de que o cotidiano em uma guerra é mais tolerante que numa cidade como Paris, dando assim a proporção exata da forma hostil que convivem a população em sociedades multiculturais como a França.

Em alguns momentos “Código desconhecido” lembra a obra-prima de Robert Bresson “L’Argent” de 1983, além de contar com um formato similar ao dos chamados  multi-plots como “Magnolia”, “Short-Cuts” e “Rio 40°” de Nelson Pereira dos Santos. Mas a diferença é que Haneke não se prende a explicações, abrindo ao expectador a possibilidade de uma interpretação mais pessoal sobre o filme.

Juliette Binoche atua como protagonista junto a um elenco de ótimos atores desconhecidos. Ela inclusive foi a responsável pela ida de Michel Haneke para a França, pois manifestou a vontade de trabalhar com o cineasta após assistir ao também impressionante “Violência gratuita”. Ambos voltariam a trabalhar mais uma vez em “Caché” cinco anos depois.

“Código desconhecido”, assim como todos os filmes do cineasta nada mais é que uma crônica sobre a violência, não só física, mas também uma violência psicológica. Haneke constantemente tem a clara intenção de inquietar o expectador, sendo sua marca pessoal mais evidente, tentando de alguma forma fazer com que nossos olhos entrem em sintonia com os seus, fazendo o público perceber o quanto a tensão e o medo são a tônica das metrópoles contemporâneas , e estas a cada dia que passa se transformam em barris de pólvora cada vez maiores.

Nota : 8,0

 

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Imagine um cineasta brasileiro que consegue ganhar a palma de ouro no festival de Cannes. Difícil de acreditar? E se o mesmo prêmio fosse disputado por  concorrentes pesos-pesados como Michelangelo Antonioni e Luis Buñuel com os clássicos “O eclipse” e “O Anjo exterminador”, respectivamente? E se eu disser que este mesmo cineasta havia começado sua carreira no cinema trabalhando com Orson Welles, você acreditaria? Pois bem, este cineasta existiu, seu nome era Anselmo Duarte diretor de “O pagador de promessas”, que veio a falecer no último sábado decorrente de um acidente vascular cerebral hemorrágico aos 89 anos.

A carreira de Anselmo iniciou-se de forma curiosa, depois de saber que o cineasta Orson Welles consagrado diretor de “Cidadão Kane” estava no Brasil recrutando atores para participar de seu novo filme “It’s all True” (1942), Anselmo partiu de Salto no interior de São Paulo até o Rio de Janeiro para trabalhar como figurante na produção. O filme nunca foi finalizado devido a problemas orçamentários de Welles, causados por bebidas e mulheres além da trágica morte de um dos atores do filme durante filmagens na Baía de Guanabara.

Mas se não conseguimos ver um pouco da genialidade de Orson Welles em terras tupiniquins, pelo menos “Its all True” serviu como empurrão para a carreira de um grande ator e cineasta. Sendo assim cinco anos depois Anselmo estrela sua primeira produção cinematográfica atuando no filme “Não me diga Adeus” de 1947, uma co-produção entre Brasil e Argentina. Depois de algumas produções de menor projeção participa de Dramas da Cinédia e de chanchadas da Atlântida dentre elas “Carnaval de Fogo” de 1949 e “Aviso aos Navegantes” de 1950, ambos os filmes atuando como galã em companhia de Oscarito e Grande Otelo. Neste mesmo período é criada a Companhia Cinematográfica Vera Cruz , maior concorrente da Atlântida. No estúdio paulistano Anselmo trabalhou em melodramas como:  “Tico-tico no fubá” de 1952, “Veneno” do mesmo ano e “Sinhá moça” de 1953. No mesmo estúdio Anselmo fez sua estréia como Diretor com a comédia “Absolutamente Certo” de 1957. O filme rendeu boas críticas tanto para direção quanto para a sua atuação, além de receber boa arrecadação nas bilheterias.

 Depois da primeira empreitada como diretor Anselmo resolve alçar vôos ainda mais altos, optando por dirigir a adaptação cinematográfica da peça de Dias Gomes: “O Pagador de promessas”. Os direitos para adaptação foram conseguidos em meio à desconfiança do autor que não acreditava que um ator que havia despontado com comédias “Carnavalescas” e melodramas pudesse adaptar de forma satisfatória uma peça “séria” que envolvia questões sobre analfabetismo, religião e adultério. Os direitos foram conseguidos por 400,00 cruzeiros, sendo este o valor mais alto pago a uma adaptação brasileira. Anselmo fez por merecer cada centavo pago pela obra, fazendo uma transposição fiel do texto, mas com grande riqueza cinematográfica. O filme se consagrou no festival de Cannes recebendo a Palma de ouro, pela primeira e única vez um filme nacional conseguiu tal feito contrariando não só Dias Gomes como até mesmo o Itamaraty, que não enviou bandeira nem disco com o hino nacional para a cerimônia de hastear. Durante todo o ano o filme venceu prêmios em todas as partes do mundo além de ter sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

 Mesmo não sendo um filme considerado parte do movimento “cinema-novo”, ele discute questões abordadas naquele movimento como: a miséria, crença e a exploração do camponês. Nos anos seguintes filmes como “Vidas Secas” (1963) e “Deus e o Diabo na Terra do sol” (1964) viriam abordar temas similares ao filme de Anselmo Duarte.

Passado o grande sucesso de “O Pagador de promessas” o diretor filma “Vereda da Salvação” adaptação da peça de Jorge Andrade de 1965 estrelado por Raul Cortez. Mesmo sendo um filme elogiado pela crítica e indicado ao urso de ouro no festival de Berlim o filme não alcançou o e mesmo êxito de “O Pagador de promessas”. Dois anos depois participa como ator do excelente filme “O Caso dos irmãos Naves” dirigido por Luís Sérgio Person diretor de “São Paulo S.A”; no filme Anselmo interpreta um tenente da polícia que investiga um roubo de dinheiro em uma lavoura de arroz. Nos anos seguintes filma “Quelé do Pajeú” de 1969, “O impossível Acontece” de 1970, comédia em parceria com Daniel Filho e Adolpho Chadler. A década de 70 foi a última de Anselmo como cineasta, nela filmou sua maior e mais cara produção cinematográfica com o filme “Um certo Capitão Rodrigo”, registro de parte do romance “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo. ano em que o diretor participou como membro do júri no festival de Cannes. Em 1973 dirige o suspense “O descarte”, o filme foi um grande sucesso de público e crítica, conta a história de uma viúve que se vê ameaçada após iniciar um relacionamento com um homem mais jovem. Seus filmes posteriores seguem os moldes da comédia “O impossível acontece” em que divide a direção com outros cineastas, são eles “Ninguém segura essas mulheres” de 1976 e “Já não se faz amor como antigamente” do mesmo ano, em ambos os filmes Anselmo participa como ator. No ano seguinte o diretor realiza o ótimo “O crime do Zé Bigorna” estrelado por Lima Duarte, e fala de um pacato ferreiro que recebe uma proposta para casar-se com uma prostituta de cabaré para encobrir o relacionamento amoroso entre ela e um político de sua calma cidade. Tempos depois os amantes são encontrados mortos fazendo com que a culpa recaia sobre os ombros de Zé Bigorna. Em 1979 Anselmo dirige seu último filme “Os trombadinhas” estrelado por Pelé e que aborda a questão de menores abandonados em São Paulo.

Nos anos 80 o diretor, ator e roteirista começa a sua reclusão, seu último filme foi a refilmagem do clássico de Humberto Mauro, “Brasa Adormecida” de 1983 em que atua.

Anselmo Duarte foi com certeza foi um dos grandes diretores do cinema nacional, entretanto sempre teve que conviver com o estigma de “galã”, sempre provou que era talentoso e acima de tudo muito versátil. Não é a toa que até hoje seu principal filme “O Pagador de promessas” seja o filme nacional de maior projeção internacional. Recentemente, o diretor foi agraciado com a Ordem do Ipiranga, mais importante honraria concedida pelo governo de São Paulo. Seu corpo foi enterrado em Salto, interior de São Paulo, cidade onde Anselmo começou a trabalhar com cinema aos 10 anos de idade, ajudando seu irmão projecionista.

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