Nego e Cocada Na Terra do Sol
Por Bruno Marques
04/06/2010
Alguns dos principais momentos do cinema nacional estiveram diretamente ligados ao retrato da miséria dos habitantes do nordeste brasileiro. Se voltarmos no tempo veremos, ao longo dos anos, diferentes pontos de vistas sobre o assunto. Glauber Rocha, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, usou da literatura de cordel para propagar suas idéias ateístas e revolucionárias, naquela que é considerada a obra-prima do cinema novo. Nos anos noventa, Walter Salles adaptou a experiência de Wim Wenders em “Alice nas Cidades” para o semi-árido ao realizar o Road movie “Central do Brasil”. Mesmo separados por décadas, No meio do mundo (Puisque nous sommes nés,2008), produção francesa que chega aos cinemas nesse fim de semana, guarda muitas semelhanças com os dois longas brasileiros.
Dirigido por Jean-Pierre Duret e Andrea Santana, a fita foi concebida a partir do contato da dupla com um menino que pedia esmola em um posto de gasolina no interior de Pernambuco, próximo a Caruaru. O menino, apelidado de Nego, compartilha, com o também menor Cocada, a condição de protagonista do documentário, que usa da linguagem do cinema verdade para evidenciar a miséria nacional.
Durante os 90 minutos de projeção, somos bombardeados por imagens que evidenciam o sofrimento dos habitantes daquela região. Pessoas lutam por um pouco de água, distribuída por um carro pipa; crianças, aparentemente abandonadas, brincam na beira de uma estrada, em meio à caminhões que passam em alta velocidade, além da exploração da mão de obra infantil. Porém o filme não se prende somente ao vazio testemunho sensacionalista, já que também oferece uma análise individualizada da miséria, ao dar voz aos dois personagens principais, pertencentes aquela sociedade.
Para Cocada e Nego, restam alguns caminhos que levam ao sonho de uma vida melhor, no filme retratadas em três vertentes: a da marginalidade, da religiosidade e do trabalho honesto – caracterizado na figura de um motorista de caminhão. O primeiro caminho é completamente descartado pelos dois meninos, que com maturidade surpreendente, possuem discernimento suficiente para saber que o caminho do crime não é a solução para o fim de seus sofrimentos.
Restam as duas últimas possibilidades. O caminho da religiosidade seduz Nego em diferentes momentos do longa, por meio de fieis que tentam propagar seus costumes e crenças de forma a tentar converter o menino. De certa forma, o documentário retoma a discussão proposta por Glauber Rocha no filme de 1962, que, por sua vez, fazendo uso de um narrador/cantor, que diz: “(…) o destino é do homem, não é de Deus nem do Diabo”. Talvez Nego tenha chegado, de forma congênita, à mesma conclusão que teve o diretor de “Terra em Transe”, tanto que em determinado momento, enquanto trabalha, Nego ouve, de forma indiferente, ao discurso propagandista de um fiel – que devidas proporções pode ser comparado ao beato Sebastião, que representava o fanatismo religioso do sertanejo em “Deus e o Diabo Na Terra do Sol”.
Já Cocada, pode ser considerado o espelho de Dora, protagonista de Central do Brasil. Como ela, o menino procura um equivalente à figura do pai (Dora foi abandonada pelo pai alcoólatra, já Cocada teve seu pai assassinado), retratada em Mineiro, um caminhoneiro, que passa a ser o modelo ideal para o jovem. Coincidentemente Dora também possui uma forte relação com um motorista de caminhão, vivido por Othon Bastos, que representou, ao lado do menino Josué, o resgate da sensibilização da protagonista do filme de Walter Salles.
Mesmo não contando com nenhuma novidade marcante, No meio do mundo carrega o mérito de seu um longa estrangeiro com olhar brasileiro, que reflete a identidade nacional sem alarmismos, construindo uma história universal no meio do Nordeste brasileiro.


