Surpresa. Talvez seja a palavra que melhor define o longa Um sonho possível (The Blind Side: Evolution of a Game,2009), pois à primeira vista, se trata de um draminha corriqueiro, daqueles que as donas de casa adoram assistir nas tardes de sábado, antes de ir ao cabeleireiro. No entanto, a fita escrita e dirigida por John Lee Hancock, consegue agradar tanto aqueles que curtem chorar com uma historinha descartável, quanto os mais exigentes espectadores.
Mesmo contendo ritmo de produção televisiva em alguns momentos,o filme consegue manter uma relação cativante entre o público e seus protagonistas, ficando impossível não torcer por um happy end , para a relação entre um jovem carente e sua nova mãe adotiva, e a busca de ambos para tornar realidade o sonho de transformá-lo em um jogador de futebol americano profissional.
A história, por mais improvável que pareça ser, é baseada em fatos verídicos, relatados no livro homônimo escrito por Michael Lewis, que acompanha os passos de Michael Oher (Quiton Aaron), um adolescente de 17 anos, de grande estatura, semi-analfabeto, e que vive com o zelador de uma escola para crianças ricas que, por sua vez, convence o treinador da equipe de futebol americano daquela instituição a dar uma oportunidade ao menino. Porém, as péssimas notas do rapaz, pode atrapalhar as chances do rapaz de ingressar no time.
Em seguida, um fato improvável acontece, quando a socialite Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock), mãe de dois filhos, casada com Sean Tuohy (Tim McGraw), um bem sucedido empresário do ramo de fast-food, vê Michael vagando por uma estrada sem rumo, fazendo com que Leigh convide o adolescente para passar a noite em sua casa, começando assim uma amizade entre eles, que logo transformará em uma relação de mãe e filho.
A reconstrução desta família é o que faz de Um sonho possível um filme especial, já que gradativamente percebemos algumas mudanças de tratamento entre Michael e a família. Esta metamorfose, pode ser acompanhada nos pequenos gestos de proteção materna, na lenta adaptação ao novo lar (principalmente na cena em que Michael é chamado para participar da foto de fim de ano), e na superação de diversos obstáculos que vão unindo cada vez mais os integrantes daquela casa.
Sem dúvida a competente atuação de Sandra Bullock, vencedora do globo de ouro pela produção, e sua sintonia com o jovem ator Quiton Aaron, são as maiores fontes de emoção do longa, que descarta completamente o excesso de dramalhão ao “enxugar” os diálogos melosos e encurtar as cenas de maior carga dramática,prova disso é que pouco sabemos sobre o triste passado de Michael, além de ser um personagem que pouco se expressa ou demonstra afetividade, aparentemente nem mesmo amor ao futebol americano o jovem demonstra. Este tipo perfil é o terror de qualquer roteirista que pretende adaptar um romance para a telona, já que um personagem com poucas motivações tende a ser um personagem pouco atraente para o público.
Mas, John Lee Hancock consegue o feito de investir mais na contemplação do crescimento da relação dos protagonistas, do que em excessos de conflitos, desafios e lições de moral, o resultado são cenas de emoção coerentes, passando longe dos dramalhões dignos de novela mexicana, que a própria Sandra Bullock cansou de protagonizar. Tanto, que somente no terceiro ato, quase no fim, e quando ocorrem os principais conflitos da película.
Mesmo não tendo lido o livro, acredito que o filme foi fiel a obra, já que pouco investe nos manjados artifícios de construção de um roteiro excessivamente dramático ,que visam arrancar até a última gota de lágrima dos olhos daqueles que curtem conflítos familiares, transformando Um sonho possível em um drama coerente , que emociona sem forçar a barra.



É um filme que se vê bem.